O sol é para todos

Harper Lee nos apresenta um livro atemporal sobre racismo

Falar sobre o Sol é para todos (To Kill a Mockingbird, título original em inglês), da escritora americana Harper Lee, é falar sobre Scout, uma mini narradora de seis anos que nos guia por esta bela história, cheia de aprendizados e reflexões.

Vamos mergulhar numa sociedade americana dos anos 30, dominada pela tríade perigosa: racismo, intolerância e conservadorismo.  Na cidade de Maycomb, um homem negro é acusado de um crime de estupro contra uma mulher branca. Este homem negro, Tom Robson, é defendido por um advogado branco, Atticus Finch, pai de duas crianças Scout e Jem, peças fundamentais desse enredo . Este é o plano de fundo para essa grande história sobre preconceitos, que nos é contada de um jeito completamente diferente, sob o olhar de uma menina de seis anos que não formou ainda o conceito de racismo e, portanto, não julga as pessoas pela cor da sua pele.

E aqui faço um parêntese, eu só consegui ter a dimensão da qualidade dessa obra um certo tempo depois de finalizar. Gastei alguns meses nesse livro, não foi uma leitura fluida, mas hoje escrevendo essa resenha, posso lhes dizer que é uma obra que faz jus à fama de clássico da literatura mundial e recomendo muito a sua leitura. Explico a seguir as razões:

Ao longo dos últimos meses, li alguns outros romances sobre racismo – a resenha de alguns deles você encontra aqui no site:  Eu sei por que o pássaro canta na gaiola e Um casamento americano. Esses dois último livros são fantásticos, a gente tem uma estrutura fechada, são histórias já construídas que vão sendo apresentadas numa sequência lógica.

 No caso do Sol é para todos isso não acontece a gente vai descobrindo a história a partir do olhar sensível e percepções de Scout e é justamente esse o diferencial e uma das principais características que fizeram dessa obra ser o que é, um clássico da literatura mundial, e que rendeu vários reconhecimentos a escritora Harper Lee.

Quem me acompanha aqui no blog, sabe que eu gosto muito de grifar trechos dos livros que me marcam de certa forma. E os diálogos e descobertas da pequena Scout com seu pai Atticus são muito marcantes e nos deixam bastante reflexivos.

“ –  Nunca conseguirá compreender totalmente uma pessoa se não ver as coisas do seu ponto de vista…

 – Mas, pai?

 –  … se não for capaz de se colocar na pele dessa pessoa e aí permanecer bastante tempo.”

O livro é construído a partir da formação de pensamento e opinião crítica da criança e reflete a fragmentação desse processo de construção de opinião e seus processos de descobertas, próprios da idade. A magia desse livro reside justamente nisso, a meu ver, e vou lhes dizer, eu só fui perceber isso quando estava chegando no final do livro e agora, mais ainda, depois de passado um tempo de leitura.

“ –  Defende pretos, Atticus? Perguntei-lhe eu nessa mesma tarde.

– Claro que sim. Não diga preto, Scout. É feio.

– Mas’e o qu’todo mundo diz na escola.

– Então, a partir de agora passa a ser todo mundo, menos uma pessoa …

– Mas então, se não quer que cresça falando desta maneira, por que é que me manda p’ra escola?”

Personagens

O livro tem personagens muito bonitos com valores humanos e sociais fortes, pessoas a frente do seu tempo e da sociedade da época em que se passa a história. O advogado Atticus é o principal deles. Contrariando todo um pensamento da época e enfrentando a pressão de uma sociedade conservadora, ele pega o caso Tom Robson, o personagem acusado de cometer o crime, e enfrenta a sociedade que já tinha condenado Tom antes mesmo da apuração das circunstâncias.

É muito bonito observar como Atticus transmite esses valores aos seus dois filhos Scout e Jem e os educa o tempo todo, explica, conversa com eles. Alguns diálogos são de arrepiar.

“ Este caso, do Tom Robinson, é algo que atinge a própria essência da consciência de um homem … Scout, eu jamais poderia frequentar a igreja e adorar a Deus se não tentasse ajudar aquele homem.

–  Atticus, e se ‘ocê tiver enganado…

–  Bem, muita gente pensa que elas é qu’tão certas e ‘ocê é qu’ ‘tá enganado ….

– Elas têm todo o direito de pensar dessa forma como também têm o direito a que as suas opiniões sejam respeitadas  – disse o Atticus – mas antes de viver com os outros, tenho de viver comigo próprio. E a única coisa que se sobrepões à regra da maioria é a nossa consciência.

O livro é cheio de diálogos como esses em que o Atticus ensina seus filhos a ter um olhar mais humano para os acontecimentos.  

Ao final da resenha destacarei uma seleção de trechos como os citados acima que me marcaram muito durante a leitura.

Mas voltando aos personagens, a história é repleta de vários deles –  Calpurnia, a cozinheira negra; Dill amigos das crianças; Boo Radley , dentre outros – que trazem luz a uma série de outras discussões secundárias mas igualmente necessárias: conviver com as diferenças, ter um olhar de generosidade e tolerância para o próximo, mesmo não concordando com as atitudes deste outro.  

Imagem: Autor desconhecido ( ilustração disponível na web)
MEU MARCA TEXTO DESTACOU: 

“ Então não é mesmo um << amigaço dos negros>> é?

– Mas é claro que sou. Dou o meu melhor para gostar de todo mundo… As vezes é difícil … Querida, nunca pode tomar um insulto que as pessoas te chamem de nomes feios. Só mostra até que ponto essa pessoa é pobre de espírito, mas não pode te magoar “

***

Coragem é sabermos que estamos perdendo a partida, mas recomeçar na mesma e avançar incondicionalmente até o fim … E a Srªa. Dubose ganhou, do princípio ao fim, da cabeça aos pés. Segundo a sua visão das coisas ela morreu livre e sem dever nada a ninguém. Era a pessoa mais corajosa que já conheci ”

***

“ O Atticus já me tinha dito que era sinal de bom-tom conversar com as pessoas sobre temas que lhe interessavam e não sobre temas que interessavam apenas a nós”

***

“ Geralmente as pessoas só veem e ouvem o que querem ver e ouvir”

***

“ Os senhores sabem verdade e a verdade é só esta: alguns pretos mentem, alguns pretos são imorais e alguns homens pretos são perigosos para as mulheres… brancas ou pretas. Mas esta verdade aplica-se à raça humana e não a uma raça específica. …”

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