Olhai os lírios do campo

Terminei de ler Olhai os Lírios do Campo com a sensação de ter criado algumas expectativas em torno desse livro que não se concretizaram. Há tempos, ele estava na minha lista.  Foi o primeiro livro do Érico Veríssimo que li, quero inclusive ler outras obras dele. (A propósito, tenho uma curiosidade para compartilhar: sabiam que ele foi compadre de Clarice Lispector e pai do Luís Fernando Veríssimo?). Mas mesmo tendo a franqueza de dizer aqui para vocês que esse não foi um livro que me tocou tanto quanto outras obras literárias de outros autores, terminei essa leitura pensativa a respeito dos seus personagens, em especial, de Olivia e de suas reflexões e ensinamentos acerca da vida, algumas de suas falas me emocionaram bastante.

Mas antes de falar de Olivia, gostaria de situá-los um pouco no enredo dessa história.  O jovem Eugênio, personagem principal dessa obra, nasceu numa família humilde. Ambicioso, conseguiu se formar em Medicina. O desejo por ter muito dinheiro, trabalhar num escritório fez com que Eugênio se casasse por interesse com Eunice, filha de um rico empresário. Na universidade, Eugênio conheceu Olivia e se apaixonou por ela, no entanto, não teve coragem para assumir o romance, escolhendo casar-se com Eunice. Paro por aqui, pois a história tem muitos caminhos e não é minha intenção entrega-los aqui nessa resenha.   

O livro é dividido em duas partes e a história se passa em Porto Alegre e em cidadezinhas ao redor. O autor utiliza muitos flashbacks para voltar ao passado e explicar o presente de Eugênio. O leitor tem que estar muito atento para não se perder nesse vai e volta. Talvez a gente possa captar todos os detalhes da história numa segunda leitura do livro porque no início você não tem acesso a informações que só terá no final do livro ou a medida em que a história avança, então é difícil capturar as mensagens e detalhes que o autor está tentando nos contar, ao menos fiquei com essa sensação.

Dito isso, quero falar sobre dois personagens deste livro. Eugênio, embora seja o principal da história, é aquele personagem que nos causa muita indignação, não vou dizer que seja uma pessoa ruim, mas tem muito a aprender, materialmente apegado a  coisas pequenas, sonha em ser rico, ter prestigio, mas ao mesmo tempo se sente extremamente infeliz com a vida que leva, é um sujeito amargurado, indeciso. É o típico cara chato, a meu ver, não assume o controle da própria vida. (Ele foi o responsável em muito momentos por me fazer achar o livro enfadonho, quase uma madame Bavary, do Gustave Flaubert – para mim uma das personagens mais chatas da literatura). Em algum momento da história Eugênio passa por um processo de evolução, mas até chegar nessa parte, ele já nos irritou bastante.

A outra personagem que quero destacar aqui é Olívia, uma jovem simples, amorosa, de extrema sensibilidade e com uma compreensão bastante bonita da vida.  Os diálogos dela com Eugênio são cheios de ensinamentos, resiliência, lições. É uma personagem muito querida, dá vontade de tira-la do papel e da imaginação e convidá-la para um café, pedir alguns conselhos (quem ai nunca quis tirar uma personagem das páginas de um livro e torna-la real). Uma das passagens mais bonitas do livro vem de uma de suas falas, é quando entendemos o porquê do título Olhai os lírios do campo.

“Os homens deviam ler e meditar nesse trecho, principalmente no ponto em que Jesus nos fala dos lírios do campo, que não trabalham nem fiam e, no entanto, nem Salomão em toda a sua glória jamais se vestiu como um deles. Está claro que não devemos tomar as parábolas de Cristo ao pé da letra e ficar de papo para o ar, esperando que tudo nos caia do Céu. É indispensável trabalhar, pois um mundo de criaturas passivas seria também triste e sem beleza. Mas precisamos dar um sentido humano às nossas construções. E quando o amor ao dinheiro, ao sucesso, nos estiver deixando cegos, saibamos fazer pausas para olhar os lírios do campo e as aves do Céu…”

Esse trecho me toca justamente por falar da leveza da vida e do fluxo natural das coisas sem pesar para os extremos. O equilíbrio está em não deslizar entre extremidades. É preciso uma dose de esforço para fazer as coisas acontecerem em nossas vidas, mas em algum momento é preciso confiar que as coisas seguem seu fluxo natural e se Deus, a natureza, o universo ( o que você acreditar) não permite que os lírios do campo, nem as aves do céu fiquem desamparados também não há de nos abandonar. Mas também não convém ficar parado achando que as coisas acontecerão unicamente pela providência divina, natural, universal, há que se trabalhar para conquistar o que se busca.   

Outro trecho igualmente belo das falas de Olívia se refere a aceitação da vida, mas não dentro de um ponto de vista de passividade e comodismo. “ É indispensável que conquistemos este mundo, não com as armas do ódio e da violência e sim com as do amor e da persuasão. Considera a vida de Jesus. Ele foi antes de tudo um homem de ação e não um puro contemplativo … E quando falo em aceitar a vida não me refiro à aceitação resignada e passiva de todas as desigualdades, malvadezas, absurdos e misérias do Mundo. Refiro-me, sim à aceitação da luta necessária, do sofrimento que essa luta nos trará, das horas amargas a que ela forçosamente nos há de levar ”.

Olívia é uma personagem inspiradora… “Era por causa da honestidade de Olívia para consigo própria e para com os outros, por causa da sua simplicidade genuína, que Eugênio se sentia bem junto dela …” e a gente também se sente bem ao lado dela lendo esta obra. Convido-os a conhecerem Olívia!

“ Olha as estrelas. Sempre há esperanças na vida …”, ela sempre lhe dizia estas palavras

“ A vida começa todos os dias “, costumava dizer Olívia

“ O melhor é não pensar muito e não fazer perguntas…” Dr. Seixas

“ A gentileza podia melhorar o Mundo. Se os homens cultivassem a gentileza seria possível atenuar um pouco tudo quanto a vida tem de áspero e brutal”, Eugênio

“Pensemos apenas nisto: não fomos consultados para vir para este Mundo e não seremos consultados quando tivermos de partir. Isto dá bem a medida da nossa importância material na terra. Mas deve ser um elemento de consolo e não desespero”, Eugênio

“Felicidade é a certeza de que a nossa vida não se está passando inutilmente. São estes intervalos entre um trabalho cansativo e outro trabalho cansativo, estes intervalos em que a gente pode conversar com um amigo, brincar com os filhos, ler um bom livro … O erro é pensar que o conforto permanente, e bem-estar que nunca acaba e o gozo de todas as horas são a verdadeira felicidade”, Eugênio   

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s