Ciranda de Pedra

“O essencial era desvencilhar-se da face antiga com a naturalidade da lagarta na metamorfose…”

Uma das coisas que eu mais admiro na produção literária dos escritores brasileiros é a diversidade. A nossa literatura é tão plural e rica que cada vez que finalizo um livro nosso, eu fico admirada com tamanha originalidade de estilo e enredo. Começo essa resenha fazendo essa observação justamente porque esse foi o meu sentimento ao terminar a leitura de Ciranda de Pedra (1954), de Lygia Fagundes Telles.

Primeiro romance de Lygia Fagundes Telles(1954)

Daí vocês me perguntam: qual sentimento, Ligia? O sentimento de estar diante de uma boa história, bem construída, que envolve o leitor e o faz refletir e as vezes até se identificar com aquilo que está sendo dito. E essa é a minha medida para dizer se um livro é bom ou ruim, esta capacidade que a história ali tecida pelo autor tem de ecoar aqui dentro, em mim.

Voltando ao Ciranda, esse que é considerado o romance de estreia da autora dentro do gênero romance. Para quem não sabe Lygia é muito conhecida por seus contos. O romance aborda as relações familiares sob um prisma, de certo modo até psicológico, a partir do universo da personagem Virgínia. 

O núcleo familiar é a o palco principal para o desenrolar dessa história. Uma traição muda o curso de toda a família e a menina Virgínia é a mais afetada diante dessa situação que vai impactar o destino de todos os personagens. Lygia soube como poucos autores expor o comportamento da personagem a partir das suas ações, pensamentos e sentimentos em sua relação com a mãe (Laura), Daniel (padrasto), Natércio (pai), Bruna e Otávia (as irmãs), Frau Herta (a governanta) e Letícia, Conrado, Afonso (os amigos).

Vírginia é a irmã rejeitada, dentro do processo de rompimento de relação entre os pais, Laura e Natércio (estou me segurando aqui para não dar spoiler), ela é separada junto com a mãe do convívio com as duas outras irmãs, Otávia e Bruna. Virgínia de certa forma é descrita com a irmã dramática, a que pensa e sofre demais. Otávia é o polo oposto é a que não se preocupa muito, é a artista, a tida como mais bela, mais objetiva. Já Bruna por sua vez, é a irmã mais velha, a mais religiosa, a irmã centrada, a mais adulta das três.   

O trabalho de construção de cada um dessas personagens é um traço marcante desse romance. Me chamou atenção a contraposição das diferentes personalidades e como Lygia soube descrever esse fato no diálogo entre as duas irmãs Virginia e Otávia, por exemplo, e assim evidenciar essa diferenciação:

“  – Você pensa demais, querida. Ande despreocupadamente e verá que não há nem passo bom nem ruim, é ir andando, tocando para a frente. Para isso Ele nos deu pernas ágeis. “(Otávia para Virginia)

Como leitor e observador, a gente tem o olhar de fora e passa a ter conhecimento sobre os impactos que as circunstâncias têm sobre a formação da personalidade de cada uma delas. E vê que não existe forma certa ou errada de se ser neste mundo, nós somos o resultado das experiências que a vida nos apresenta ao longo da caminhada e cada um de nós reage de um jeito e isso vai moldando a nossa personalidade ao longo do processo.

Eu poderia ficar horas e horas escrevendo aqui sobre diversos aspectos que essa história me despertou, mas gostaria de convidá-los a ler este livro em algum momento para conhecer a obra de Lygia, caso ainda não conheçam, para exercitar o olhar sobre a personalidade humana e como ela é moldada na experiência de suas relações, sobretudo às familiares e de amizade, ao longo da vida.

“ É um livro duro, mas sem nenhuma passagem escabrosa. As notações psicológicas são as mais finas, e a evolução da trama vai oferecendo quadros de costumes que dão à obra importância como documento social, sem entretanto lhe tirar qualquer de suas qualidades como obra puramente literária, isto é, obra de arte, válida por si mesma”. (Carlos Drummond de Andrade)

2 comentários sobre “Ciranda de Pedra

  1. Adorei a resenha e principalmente a passagem que destacou: “ – Você pensa demais, querida. Ande despreocupadamente e verá que não há nem passo bom nem ruim, é ir andando, tocando para a frente. Para isso Ele nos deu pernas ágeis. “(Otávia para Virginia)

    Essa passagem condiz muito com os ensinamento da Bhagavad Gita e outras filosofias orientais, de que não há nada nessa vida que seja bom ou ruim, somos nós que damos sentido, emoções e reações aos acontecimentos e assim os qualificamos, mas na verdade todos eles são sempre neutros… Será? E pelo visto essa passagem fala um pouco sobre isso, mas queria saber sua opinião sobre isso, adoro suas resenhas, embora já comentei contigo que sinto falta muitas vezes de ler suas emoções, seus sentimentos e como a obra reverberou em ti, um pouco mais do que que um texto jornalístico, ou uma resenha apenas…

    Te convido a compartilhar o que essa passagem que destacou te fez sentir, como ela mexeu contigo, o que ela te trouxe que quis compartilhá-la conosco?

    Agradeço e espero que gostes desse comentário mais provocativo…hehehehe

    Curtido por 1 pessoa

    1. Evandro, obrigada por compartilhar as suas impressões por aqui tb. Verdade vc sempre me fala isso: descrever mais os meus sentimentos em relação aos livros. Acho que faço isso, mas fica nas entrelinhas da resenha hahaha e só quem me conhece um pouquinho mais consegue captar. Mas sim, o fato de destacar esse trecho da personalidade de Otávia é justamente por ser uma característica que não seja tão marcante em mim ( esse despreendimento) e algo venho buscando me trabalhar e desenvolver com relação a vida, ao outro. Eu admiro as pessoas assim porque eu tendo a ser mais Virginia, me preocupo, sinto, instrospecto bastante meus sentimentos e pensamentos e gasto uma energia gigante nesses processos. Hoje na discussão do livro eu comentei que gostaria de ouvir mais Otávia isso porque o narrador principal do livro é Vírginia então eu gostaria de escutar essa história pela visão de Otávia ahaahhah justamente por ser um contraponto a minha personalidade. Bjs

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