Torto Arado

“ Sobre a terra há de viver sempre o mais forte.”

Falar sobre Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, sem dar spoiler não é uma tarefa fácil. Esse livro é muito maravilhoso, pessoal. A gente termina a leitura com uma vontade imensa de conversar sobre o enredo, sobre os personagens e os temas colocados em discussão pelo autor de forma tão clara e atual. Mas tentarei me controlar aqui para não entregar a história.

Começo essa resenha dizendo que Torto Arado é uma obra que deveria ser de leitura obrigatória para todos os brasileiros. Estamos diante de um romance regional que é uma verdadeira aula de Brasil e um Brasil desconhecido por muitos de nós.   

O ponto de partida desta história é a relação entre duas irmãs Bibiana e Belonísia. Um incidente marca a vida das duas para sempre e, de certa forma, o destino de todos os moradores de um povoado pequeno chamado Água Negra. As duas irmãs vivem numa fazenda no sertão baiano, na região da Chapada Diamantina com a família. Ambas são filhas de Zeca Chapéu Grande, um homem trabalhador muito respeitado pela comunidade, especialmente, por seus poderes curativos.

Um aspecto que me chamou a atenção na construção dessa narrativa pelo autor é que os personagens, embora protagonistas de uma realidade difícil e de luta diária, em momento algum são apresentados como vítimas. Itamar os coloca como reais protagonistas do próprio destino e, apesar de todo contexto social difícil em que estão inseridos, eles realmente são donos da própria história. O livro é separado em três partes, cada parte é narrada por um personagem, convém prestar atenção.

Há muito tempo, a literatura brasileira não produzia um romance regional de cunho documental com tamanho potencial para se tornar uma obra clássica da nossa literatura como vemos nas páginas de Torto Arado. Esta leitura me trouxe uma serie de emoções e reflexões que não sentia diante de um regional desde Vidas Secas, de Graciliano Ramos, outra obra que considero singular em nossa literatura.

Ambas falam sobre um Brasil rural, traçam um olhar sobre o sertão, a luta do sertanejo para sobrevier da terra. Itamar nos coloca em contato com um sistema de exploração que aprisionou o homem ao campo, resquício de um sistema escravocrata que até hoje massacra um povo que continua esquecido e ignorado por nossa sociedade.

Em Torto Arado, vemos o encontro perfeito entre a grande reportagem e o romance regional. O autor foi brilhante ao dar voz a tantos personagens e ao mesmo tempo trazer uma discussão sobre temas que ainda não foram superados: a exploração do homem do campo, a falta de acesso à educação e aos benefícios sociais como os previdenciários, a posse da terra, a violência contra a mulher no contexto doméstico, a fome. Ao mesmo tempo, o autor nos dá uma aula sobre o sincretismo religioso e manifestações culturais de uma região repleta de tradições na Chapada Diamantina, na Bahia.

PS: Torto Arado recebeu o prêmio Jabuti em 2020 (Câmara Brasileira do Livro) na categoria Romance Literário e o prêmio Oceanos 2020 ( Itaú Cultural)

“ Meu pai não era alfabetizado, assinava com o dedo de cortes e calos, de colher frutos e espinhos da mata. Escondia as mãos com a tinta escura quando precisava colocar suas digitais em algum documento. De tudo que vi meu pai bem querer na vida, talvez fosse a escrita e leitura dos filhos o que perseguiu com mais afinco”. (Bibiana)

“ Eram pessoas desconectadas do seu eu, desconhecidas de parentes e de si. Eram pessoas com encosto ruim, conhecidos e também desconhecidos de todos.” (Bibiana)

“ Os curadores serviam para restituir a saúde do corpo e do espírito dos doentes, era o que sabíamos desde o nascimento.” (Bibiana)

“O sofrer vinha das coisas que nem sempre davam certo, me fazia sentir viva e unida, de alguma forma, a todos os trabalhadores que padeciam dos mesmos desfavorecimentos.” (Belonísia)

 “ Se o ar não se movimenta, não tem vento, se a gente não se movimenta, não tem vida”. (Belonísia)

“ … com o coração aos pulos dizia a mim mesma ‘ a cada hora, sua agonia’..” (Belonísia)

4 comentários sobre “Torto Arado

  1. Nossa, Liginha. Amei essa resenha e confesso que fiquei com MUITA vontade ler o livro. Eu adoro Vidas Secas! E que frase de impacto essa, hein? “Se o ar não se movimenta, não tem vento, se a gente não se movimenta, não tem vida”. Obrigado por compartilhar seus pensamentos sobre essa obra!

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  2. Ahhhhh Liginha, está carente e quer comentários…
    Adorei a resenha do livro e também fiquei bem tocado com a frase que Aerton destacou, ela fez um UAUUUUUUUU aqui dentro… Reverberou bem forte, pelo visto o livro também deve ter essa percepção ao leitor, vou pensar com carinho se coloco ele na minha lista de leitura, pois como sabes tenho procurado leituras mais leves nesse momento…
    Agradeço pela resenha e principalmente por essas frases do livro que compartilhou.

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    1. HAHHAHAH…besta não estou carente de comentários. Eu queria saber a tua opinião sobre a resenha e sobre o livro. Fico feliz tenha cogitado incluir Torto Arado em sua lista, eu realmente acho que esta deveria ser uma leitura obrigatoria para todos os brasileiros. Nem sempre a realidade é linda e leve, mas leituras como essa nos torna mais humanos e empáticos e menos alienados. Beijos

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