O Filho de Mil Homens

Valter Hugo Mãe nos coloca em contato com uma série de histórias unidas pelo amor de indivíduos que já não tinham mais esperanças de afeto

Finalizo O Filho de Mil Homens, do escritor Valter Hugo Mãe, com a sensação de que o tempo me fará compreender a grandeza e as sutilezas desta obra. De início, confesso a vocês que não achei uma leitura tão fluida, daquelas que você devora numa sentada, talvez pela própria densidade das histórias de vida de cada um dos personagens, ali descritos de um jeito tão maravilhoso e único pelo autor. Mas curiosamente, terminei o livro com várias marcações de trechos e com a sensação de que esses fragmentos me acrescentarão e me farão refletir por um longo tempo –  o que considero um traço muito importante e positivo na minha avaliação de uma obra enquanto leitora: a capacidade que essa obra tem de me tocar e me fazer pensar sobre a realidade, sobre as relações, sobre o ser humano, sobre mim mesma.

Acho que a melhor definição para descrever este livro é compará-lo a um tecido. Valter Hugo Mãe, de repente, nos apresenta uma série de histórias que estão interconectadas entre si como um emaranhado de linhas unidas por alguns traços em comum que mais adiante formarão uma colcha, um cobertor que os acolhe. Estamos diante de personagens que não tinham esperanças e afetos e, de repente, ao longo da trama vão descobrindo que o amor surge do inesperado e que esse amor pode ser aquele amor que não cabe em caixas, em padrões sociais pré-definidos. São personagens tão bonitos que crescem, amadurecem e aprendem ao longo da trama e com isso muito tem a nos ensinar.

O esperançoso Crisóstomo sonhava em ser pai, ter uma família, a companhia de uma esposa, e depositava as suas esperanças em pedir ao universo e a natureza a companhia de um filho.” E depois disse que estava a sentir-se maluco por falar à natureza … e porque tinha falhado no amor e a última vez que lhe pertencera alguém importante por quem muito se iludira fora já há muito tempo, e quase não se lembrava de como era ter uma companhia dessas, uma companhia de verdade. A companhia de verdade achava ele, era aquela que não tinha por que ir embora e, se fosse, ir embora significaria ficar ali, junto”. De repente, ele vê o seu desejo atendido, não de modo convencional conforme preconizado pela sociedade. Mas Crisóstomo tem seu desejo atendido com a chegada do jovem Camilo a sua vida, um órfão com uma história de vida muito especial, e na relação construída entre os dois, ambos tem muito a aprender um com outro.

E eu fiz questão de citar a relação entre esses dois personagens para falar de uma constatação muito bonita que o doce Crisóstomo que começa essa história se sentindo tão solitário ensina a seu filho mais adiante e, que de certa forma, diz muito sobre esta obra . “ O Crisóstomo disse ao Camilo: todos nascemos filhos de mil pais e de mais mil mães, e a solidão é sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo. Como se os nossos mil pais e mais as nossas mil mães coincidissem em parte, como se fossemos por aí irmãos, irmãos uns dos outros. Somos o resultado de tanta gente, de tanta história, tão grandes sonhos que vão passando de pessoa a pessoa, que nunca estaremos sós.”

Como eu disse, é bonito ver ao longo da história como os personagens vão se despindo dos seus preconceitos aceitando uns aos outros como verdadeiramente são e sendo assim passam a ser mais felizes e a estar em paz consigo próprios.   

E eu não poderia finalizar esse texto sem mencionar o amadurecimento de dois personagens ao longo da trama que é a relação do Antonino, o homem “maricas” e sua mãe que daria tudo  para ter um filho que não fosse gay e como essa perspectiva se transforma ao longo da trama.  E como isso reverbera em todos os personagens:  “ O Crisóstomo então levantou-se, atravessou o quarto, saiu, foi ver o Camilo deitado e beijá-lo para dormir e disse-lhe: nunca limites o amor, filho, nunca por preconceito algum limites o amor.”    

A seguir selecionei alguns trechos que destaquei durante a leitura e os compartilho com vocês:

“O sol era que mandava, a significar a vida que se punha a continuar para além até das grandes tristezas…”

“ Quem tem menos medo de sofrer, tem maiores possibilidades de ser feliz …”

“O Crisóstomo explicava que o amor era uma atitude. Uma predisposição natural para se ser a favor de outrem. É isso o amor. Uma predisposição natural para se favorecer alguém. Ser, sem sequer pensar, por outra pessoa…”

“ A felicidade é a aceitação do que se é e se pode ser…”

“ Talvez pensasse que a vida era curta. Demasiado breve para tanto procurar. Melhor seria se aceitasse o que havia como bastante. A felicidade podia definir-se assim. O bastante…”

“ Tratava as coisas todas como se as coisas todas fossem para melhorar. Era triste que ninguém tivesse percebido isso até então…”

“ Até porque desistir de um filho seria como desistir do melhor, de nós próprios. Cada filho somos nós no melhor que temos para dar. No melhor que temos para ser…”

2 comentários sobre “O Filho de Mil Homens

  1. Evandro Sabóia

    Agradeço por essa resenha e saber um pouco mais sobre as obras de Victor Hugo Mãe, afinal confesso que sempre tive um pé atrás com as obras dele por serem muito comercial e estarem sempre nos mais vendidos. Isso às vezes me dá preguiça de ler, muito marketing e tals.

    Então fico feliz ao ler sua resenha e sentir que ela me abriu um novo olhar para as obras de Victor Hugo Mãe e até me despertou o interesse de ler e aprofundar um pouco mais na obra dele…

    Agradeço pela resenha que me abriu essa janela e nova oportunidade para outros mundos…

    Gratidão e continue a compartilhar essas ótimas resenhas…

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    1. Evandro… que alegria ler isso! Fico muito feliz que minha resenha tenha despertado o seu interesse para o livro e por conhecer mais sobre as obras do autor. Este é o segundo livro dele que leio e gostei bastante dos dois, o outro foi O paraíso são os outros, igualmente sensível. O Filho de Mil Homens é um livro muito bonito, cheio de lições e sabedoria. Leia e me diga as suas impressões depois 🙂

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