Eu sei por que o pássaro canta na gaiola

Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, de Maya Angelou

Várias coisas me impressionaram na leitura dessa obra, mas acho que o que mais me impactou foi o fato de estarmos diante de uma autobiografia traduzida num romance com tamanha qualidade técnica e literária. Poucos escritores ou melhor poucas pessoas teriam a incrível capacidade e sensibilidade de transformar em romance a própria história pessoal, de forma tão poética, visceral como fez Maya Angelou em Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, apresentando fatos pessoais tão íntimos, tão marcantes e ao mesmo tempo tão tristes como fez a escritora. Refletir sobre a própria história, reconstruí-la e coloca-la num livro é um ato de coragem, aliás não poderia ter melhor adjetivo para descrever a pequena Marguerite.

O ponto inicial dessa aventura começa com Marguerite e seu irmão Bailey, por volta dos três e cinco anos cada um, sendo mandados para viver com a avó paterna, Srª. Henderson (carinhosamente chamada de Momma), e o tio Willie no Sul dos Estados Unidos numa cidade chamada Stamps, no estado do Arkansas. Acho que esse é um dos primeiros atos de coragem desses irmãos, viajar sozinhos nessa idade sem saber qual destino os esperava.

Estamos nos anos de 1930 e o contexto é o de forte segregação racial, especialmente nos Estados Unidos, e aí a gente pode ver quão cruel é o racismo e o divisor de águas que provocou no curso da história de uma vida, de uma família, de uma cidade e de uma nação. Oportunidades, destinos, sabor de sorvete, escolaridade tudo determinado pela cor da sua pele. A cor da pele definindo o seu passado, presente e futuro.

De volta a nossa querida Maya, de My (minha), apelido que Marguerite recebeu do seu irmão Bailey. Desde pequena, ela sempre mostrou que um dos traços mais marcantes da sua personalidade era o seu olhar crítico, a capacidade de observar os fatos e ir além da aceitação passiva de que as coisas são como elas são porque sempre foram assim. Maya via o sofrimento dos trabalhadores negros que acordavam cedo para a colheita de algodão, observava suas mãos calejadas pelo trabalho duro e também o fato de mesmo trabalhando tanto nunca terem dinheiro para quitar as suas dívidas com os donos das fazendas, ela olhava a submissão da sua avó diante de crianças brancas que faziam e aconteciam com uma senhora sem que ela esboçasse sequer um olhar de desaprovação.

A autora observava o sofrimento da sua comunidade que encontrava na religião a única fagulha de esperança, de salvação, de libertação e de fé num futuro melhor quando alcançassem o reino dos céus, se fossem bons devotos e seguissem as leis divinas.

Ela observava tudo isso e não se conformava, ainda que não pudesse fazer nada de concreto para alterar aquelas situações, mas em seu íntimo, Maya sempre foi muito forte, enfrentou situações de abuso, preconceito, maus tratos – ainda criança – que faria qualquer adulto desabar, e mesmo assim levantava ainda mais e mais forte. Ela buscava nos livros, na vida, no amor que existia dentro de si a compreensão e a força para transpor o sofrimento e se reerguer. Imagino que não tenha sido fácil, mas fato é que hoje estamos diante de uma história real, inspiradora. Ela deixou um legado absolutamente inspirador para as próximas gerações. Eu convido todos vocês a conhecer a história dessa mulher incrível e a mergulhar nessa leitura e se deliciar com um livro bem escrito, cheio de ensinamentos, realidade e inspiração.

“ Aos quinze anos, a vida me ensinou inegavelmente que a rendição, na hora certa, era tão honrosa quanto a resistência, principalmente quando não se tinha escolha”, Marguerite.

PS: Ana Elisa, obrigada pelo presente dessa leitura.


Conheça a seguir o poema que inspirou o titulo do livro:

Sympathy

Simpatia

I know what the caged bird feels, alas!

Eu sei o que o pássaro preso sente!

When the sun is bright on the upland slopes;

Quando o sol brilha nas encostas do planalto;

When the wind stirs soft through the springing grass,

Quando o vento sopra suave através da grama nascente,

And the river flows like a stream of glass;

E o rio corre como uma torrente de vidro;

When the first bird sings and the first bud opes,

Quando o primeiro pássaro canta e o primeiro botão abre,

And the faint perfume from its chalice steals –

E o leve perfume de seu cálice rouba –

I know what the caged bird feels!

Eu sei o que o pássaro preso sente!

I know why the caged bird beats his wing

Eu sei porque o pássaro preso bate as asas

Till its blood is red on the cruel bars;

Até que seu sangue fique vermelho nas barras cruéis;

For he must fly back to his perch and cling

Pois ele deve voar de volta para sua gaiola e se agarrar

When he fain would be on the bough a-swing;

Quando ele desmaiasse, estaria no galho um balanço;

And a pain still throbs in the old, old scars

E uma dor ainda lateja nas velhas, velhas cicatrizes

And they pulse again with a keener sting –

E eles pulsam novamente com uma picada mais aguda –

I know why he beats his wing!

Eu sei porque ele bate sua asa!

I know why the caged bird sings, ah me,

Eu sei porque o pássaro preso canta, ah eu,
When his wing is bruised and his bosom sore,-

Quando sua asa está machucada e seu peito dolorido, –

When he beats his bars and he would be free;

Quando ele bater suas barras e ele estará livre;

It is not a carol of joy or glee,

Não é uma canção de alegria ou alegria,

But a prayer that he sends from his heart’s deep core,

Mas uma oração que ele envia do fundo do coração,

But a plea, that upward to Heaven he flings –

Mas um apelo, que para o céu ele arremessa –

I know why the caged bird sings!

Eu sei porque o pássaro engaiolado canta!

Paul Laurence Dunbar, 1889

Tradução livre – interpretação Receita Literárias

2 comentários sobre “Eu sei por que o pássaro canta na gaiola

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