Em campo: a relação entre pai e filho

Capa Em Campo Aberto
Capa do romance escrito pelo jornalista Cláudio Lovato Filho, lançado pela editora Record. 

Num primeiro momento, o leitor que começa a mergulhar nas páginas de Em Campo Aberto, romance escrito por Cláudio Lovato Filho, terá a impressão de estar diante de uma crônica bem escrita sobre futebol. E vou lhes confessar aqui, futebol é um tema pelo qual eu não tenho muita afinidade, sou daquelas torcedoras que despertam somente a cada quatro anos na época da Copa do Mundo, para torcer pela seleção brasileira.

Porém, essa é apenas uma sensação de primeiro momento que se esvai logo nas primeiras páginas de leitura. Em Campo Aberto é um romance maduro muito além de uma boa crônica sobre futebol. O livro capta o leitor pelo braço e o conduz atentamente até os últimos segundos da prorrogação de suas páginas.

É perceptível que Lovato domina o tema futebol e o faz de pano de fundo, cenário perfeito, para nos contar esta história, mas o autor sabe que um bom enredo capaz de captar qualquer leitor, seja ele amante da paixão nacional ou não, precisa ir além da paisagem e nesse ponto, a meu ver, essa história deslancha. Saindo um pouco do meio do campo – para usar um termo do jargão futebolístico que eu domino muito pouco – o autor mergulha em nossa memória afetiva ao tratar das relações familiares nesta história, em especial a de um pai e um filho.

Como quem descreve um roteiro de um filme, Lovato faz com que a gente volte alguns anos no tempo e se sinta na pele de um garotinho que anseia por resgatar a relação com o seu pai. E quando a história é bem contada, bem costurada, o leitor mergulha na vida dos seus personagens e se sente um pouco parte daquela situação, suas memórias se confundem um pouco com a dos personagens. Em Campo Aberto a gente revive isso o tempo todo.

A composição dos personagens secundários desse enredo é outro ponto que chama atenção do leitor mais atento. Há uma preocupação do autor em situar o leitor acerca da vida de cada participante, uma informação, um contexto sobre  os jogadores, torcedores, lugares por onde a trama se desenrola, tudo isso contribui para deixar essa história ainda mais familiar e acolhedora.

(… ) “A velha e mitológica tristeza dos palhaços. Mesmo os mais carismáticos e engraçados jogadores, aqueles que têm muito de personagens circenses, com sua postura cômica em campo (por causa de pernas tortas ou dribles bizarros), suas declarações à imprensa dignas de humoristas, seus sorrisos ingênuos de criança que cresceu demais, mesmo esses jogadores trazem em cada movimento, em cada sorriso pelo menos um traço de drama e melancolia, um elemento de tragédia, porque o futebol é dramático e trágico em sua essência” (…) pg 101.

Alguns livros fazem com a gente fique economizando a leitura com medo da história acabar logo e ficar órfão dos personagens. Em Campo Aberto é destes, ao mesmo tempo em que você quer devorar as páginas para saber aonde tudo aquilo vai chegar, você quer ler o livro a conta gotas para continuar na companhia dos personagens. Uma doce contradição que vicia os amantes da literatura.

 

Ficha técnica do livro

Título: Em Campo Aberto

Autor: Cláudio Lovato Filho

Editora: Record

Ano: 2011

Total de Páginas: 144

 

Sinopse oficial: Em campo aberto aborda os altos e baixos das relações humanas de uma forma bastante original. Claudio Lovato Filho utiliza o futebol como pano de fundo de seu novo romance que narra o intenso relacionamento entre pai e filho. Todos os sentimentos que emergem durante uma partida de futebol são explorados pelo autor nesta história de superação. Arthur Dapieve lembra de uma passagem que capta bem a essência do livro: “Luis Fernando Verissimo certa vez escreveu que gostava tanto de futebol porque, já tendo 60 anos, o jogo era a única coisa que conseguia fazê-lo sentir-se ainda com 6”. Em campo aberto, de Cláudio Lovato Filho, explora o imaginário em torno do esporte mais querido dos brasileiros. O escritor gaúcho apresenta um romance em que aborda as relações humanas e utiliza como pano de fundo uma partida de futebol. Ao unir estes dois temas, ele mostra como o esporte consegue unir as pessoas e desfazer os nós que a vida cria. Através da relação entre pai e filho, o narrador costura o drama pessoal de cada um. O filho, que nem sequer tem nome, uma identidade, representa todos os meninos que carregam sonhos e dramas familiares e veem no futebol a esperança da transformação, porque se projetam em seus ídolos. Através do futebol, essas relações vão se transformando, mesmo que em silêncio. Como no futebol, as relações humanas têm altos e baixos. A catarse do gol é promessa de felicidade. “(…) esse menino e esse pai se transformam em pedaços da biografia de todos nós, brasileiros. São eles/nós que experimentam a excitação proporcionada não só pela partida decisiva como pela relação nem sempre redondinha entre as gerações”, escreve o jornalista Arthur Dapieve, responsável pela quarta capa do livro. Futebol é assunto pra lá de sério no Brasil. É um dos únicos esportes que une gerações em torno de um propósito e é uma fonte inesgotável de autênticas emoções. Dapieve lembra de uma passagem que capta bem o efeito do futebol nas pessoas: “Luis Fernando Verissimo certa vez escreveu que gostava tanto de futebol porque, já tendo 60 anos, o jogo era a única coisa que conseguia fazê-lo sentir-se ainda com 6”. Claudio Lovato explora este envolvimento que o futebol proporciona neste novo livro.

Sobre o autor: Cláudio Lovato Filho nasceu em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, em 1965. Ainda na infância, mudou-se com a família para Porto Alegre, onde, em 1988, formou-se em jornalismo. Iniciou a carreira em jornais de Santa Catarina. É autor também de O batedor de faltas (2008) pela editora Record.

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