Por que você deveria ler Triste Fim de Policarpo Quaresma?

Triste Fim de Policarpo Quaresma
A obra foi publicada pela primeira vez no formato de folhetim pelo Jornal do Comercio do Rio de Janeiro em 1911

Já faz algum tempo que Lima Barreto está na minha lista de autores a serem lidos. Na época do colégio o Triste Fim de Policarpo Quaresma me passou batido, não esteve entre os títulos obrigatórios cobrados – devo ter lido alguma outra obra representante do pré-modernismo, certamente – porque desde que me conheço por gente sempre fui muito entusiasta da nossa, na minha opinião, tão rica e vasta literatura brasileira, olha eu dando uma de “Quaresminha” aqui. Digo isso porque o traço característico e mais marcante do Major Quaresma era a exaltação e valorização de tudo que fosse nacional.

“ Desde moço, aí pelos vintes anos, o amor da Pátria tomou-o todo inteiro … “ no entanto, “Errava quem quisesse encontrar qualquer regionalismo; Quaresma era antes de tudo brasileiro”.

E aqui começo a enumerar as razões pelas quais acredito que você deveria ler este livro. Ler Triste Fim… é mergulhar nas nossas raízes históricas e ter contato com um Brasil ufanista e republicano, uma oportunidade de refletir por que somos como somos, há muitos aspectos narrados nessa história que se assemelham ao Brasil atual.

“ e o major ficou a pensar no interesse estranho que essa gente punha nas lutas políticas, nessas tricas eleitorais, como se nelas houvesse qualquer coisa de vital e importante. Não atinava por que uma resinga entre dois figurões importantes vinha pôr desarmonia entre tanta gente, cuja vida estava tão fora da esfera daqueles.”

Quaresma era um sonhador, um idealista de bom coração que perseguia ideais utópicos, sua ingenuidade caricata faz com que nos afeiçoemos a ele. E aqui reproduzo seu diálogo com seu único e fiel amigo, o seresteiro Ricardo Coração dos Outros.

Quaresma – “ É bom pensar, sonhar consola “ …. Ricardo. – “ Consola, talvez; mas faz-nos também diferentes dos outros, cava abismos entre os homens…”

Considero o Major Quaresma um solitário andando entre feras, possuía algumas ideias com finalidades nobres, porém bastante ingênuas para serem executadas num sistema social estabelecido.  Mergulhar nesta leitura é refletir um pouco sobre uma dinâmica fincada por raízes tão fortes que encontramos resquícios até hoje em nossa sociedade nos mais diversos aspectos: no papel da mulher; na cobrança pelo casamento como forma de ter status, poder e reconhecimento social tanto para o homem quanto para a mulher; na nossa forma de enxergar a política; em nosso olhar míope enquanto nação para encontrar soluções utilizando os nossos próprios recursos e por aí segue.

Ler Triste Fim … é se deliciar com um texto cheio de estilo literário, referências textuais, é se permitir estar em contato com uma prosa rica em descrições, em pesquisa, com personagens que te captam para a história.

Triste Fim … foi publicado pela primeira vez no formato de folhetim no Jornal do Comercio do Rio de Janeiro em 1911 e a obra de grande qualidade literária, a meu ver, tem muita influência da história de vida do próprio Lima Barreto: negro, pobre, filho de escrava liberta e professora e de pai neurastênico. Em 2017, eu tive o privilégio de participar da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) que homenageou o autor. Na ocasião pude acompanhar as exposições de diversos grupos (pesquisadores, professores, estudantes, autores, atores etc) sobre a vida e obra do escritor e, durante a abertura daquela, o ator Lázaro Ramos leu um texto do Lima que até então eu não conhecia, mas que muito me emocionou, pois encontrou eco no que acredito ser o papel da literatura em nossas vidas  e o qual reproduzo um trecho aqui com vocês porque imediatamente enquanto escutava aquela leitura, anotava trechos e não sosseguei enquanto não encontrei este ensaio escrito pelo autor e apresentado numa Conferência de Literatura, se não me falhe a memória.

“Fazendo-nos assim tudo compreender; entrando no segredo das vidas e das coisas, a Literatura reforça o nosso natural sentimento de solidariedade com os nossos semelhantes, explicando-lhes os defeitos, realçando-lhes as qualidades e zombando dos fúteis motivos que nos separam uns dos outros. Ela tende a obrigar a todos nós a nos tolerarmos e a nos compreendermos; e, por aí, nós nos chegaremos a amar mais perfeitamente na superfície do planeta que rola pelos espaços sem fim”. (O Destino da Literatura: Revista Sousa Cruz, ns. 58-59, outubro e novembro de 1921)

 

Ficha técnica do livro

Título: Triste Fim de Policarpo Quaresma

Autor: Lima Barreto

Editora: FTD

Ano: 1998

Edição: 5ª edição

Total de Páginas: 205

 

Sinopse oficial: Policarpo Quaresma ama o Brasil. Ama porque é a terra mais fértil do mundo, porque tem a fauna e a flora mais lindas e exuberantes, porque é a cultura mais rica, a melhor comida, em variedade e sabores, porque possui as mulheres mais belas e, segundo ele, até mesmo… os melhores governantes. Funcionário público, fluente em tupi, estudioso da cultura indígena e grande apreciador das modinhas de violão — para ele, o único estilo de música verdadeiramente nacional —, Policarpo, como Dom Quixote de La Mancha, enfrenta moinhos de vento para provar a todos o seu ponto de vista, bradar ao mundo o amor por sua musa, não a Srta. Dulcineia de Toboso, mas a mui amada pátria brasileira. Mas, afinal, que fim poderia ter a aventura de Policarpo? Repleto de personagens fortes e carismáticos, o romance de Lima Barreto é, ao mesmo tempo, um ensaio sobre o idealismo, uma crítica profunda, mas permeada de comicidade, da realidade brasileira do fim do século XIX e início do XX e um retrato das mudanças pelas quais o Brasil passava naquele momento, como o despertar do feminismo. Lindo, inteligente, comovente! Um clássico da literatura nacional.

Sobre o autor: Afonso Henriques de Lima Barreto nasce no Rio de Janeiro em 13 de

Lima Barreto
“A Literatura reforça o nosso natural sentimento de solidariedade com os nossos semelhantes”. (Lima Barreto)

maio de 1881. Perde a mãe, Amália Augusta, escrava liberta e professora, quando tinha seis anos, ficando sob os cuidados do pai, o tipógrafo João Henrique, que, poucos anos depois, é diagnosticado como neurastênico, o que o levaria a ficar recolhido pelo resto da vida. A doença do pai o obriga a deixar a Politécnica para sustentar a família como Amanuense do Ministério da Guerra.

Inicia sua colaboração regular para a imprensa em 1905, no Correio da Manhã. O jornal, extinto em 1974, serviu de inspiração para a criação de Recordações do Escrivão Isaías Caminha, publicado em 1909. Pelas críticas à imprensa no livro, Lima Barreto é retirado do quadro de colaboradores do Correio da Manhã e tem proibida qualquer citação ao seu nome nas páginas do diário, mesmo trinta anos depois de sua morte. Passa a colaborar, sob pseudônimo, para revistas como a Fon-Fon e Revista da Época, fazendo uma crítica social e política do Rio de Janeiro e o Brasil.

Em 1911, escreve e publica Triste fim de Policarpo Quaresma em folhetim do Jornal do Comércio. O livro seria editado em livro quatro anos depois.

Lima, devido ao alcoolismo, é internado pela primeira vez no hospício em agosto de 1914, repetindo a tragédia pessoal de seu pai. A primeira internação serve, contudo, de inspiração para sua obra a posteriori.

Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, livro que dialoga com o gênero biográfico, é publicado em 1919. No dia 25 de dezembro deste ano, o autor é internado pela segunda vez.

Lima Barreto morre, aos 41 anos, em 1º de novembro de 1922, Dia de Todos os Santos. No dia 3 de novembro, morre seu pai.

Clara dos Anjos, livro que foi escrito e reescrito durante quase toda a vida de Lima, é publicado em livro no mesmo ano de sua morte.

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