Olhai os lírios do campo

Terminei de ler Olhai os Lírios do Campo com a sensação de ter criado algumas expectativas em torno desse livro que não se concretizaram. Há tempos, ele estava na minha lista.  Foi o primeiro livro do Érico Veríssimo que li, quero inclusive ler outras obras dele. (A propósito, tenho uma curiosidade para compartilhar: sabiam que ele foi compadre de Clarice Lispector e pai do Luís Fernando Veríssimo?). Mas mesmo tendo a franqueza de dizer aqui para vocês que esse não foi um livro que me tocou tanto quanto outras obras literárias de outros autores, terminei essa leitura pensativa a respeito dos seus personagens, em especial, de Olivia e de suas reflexões e ensinamentos acerca da vida, algumas de suas falas me emocionaram bastante.

Mas antes de falar de Olivia, gostaria de situá-los um pouco no enredo dessa história.  O jovem Eugênio, personagem principal dessa obra, nasceu numa família humilde. Ambicioso, conseguiu se formar em Medicina. O desejo por ter muito dinheiro, trabalhar num escritório fez com que Eugênio se casasse por interesse com Eunice, filha de um rico empresário. Na universidade, Eugênio conheceu Olivia e se apaixonou por ela, no entanto, não teve coragem para assumir o romance, escolhendo casar-se com Eunice. Paro por aqui, pois a história tem muitos caminhos e não é minha intenção entrega-los aqui nessa resenha.   

O livro é dividido em duas partes e a história se passa em Porto Alegre e em cidadezinhas ao redor. O autor utiliza muitos flashbacks para voltar ao passado e explicar o presente de Eugênio. O leitor tem que estar muito atento para não se perder nesse vai e volta. Talvez a gente possa captar todos os detalhes da história numa segunda leitura do livro porque no início você não tem acesso a informações que só terá no final do livro ou a medida em que a história avança, então é difícil capturar as mensagens e detalhes que o autor está tentando nos contar, ao menos fiquei com essa sensação.

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Ciranda de Pedra

“O essencial era desvencilhar-se da face antiga com a naturalidade da lagarta na metamorfose…”

Uma das coisas que eu mais admiro na produção literária dos escritores brasileiros é a diversidade. A nossa literatura é tão plural e rica que cada vez que finalizo um livro nosso, eu fico admirada com tamanha originalidade de estilo e enredo. Começo essa resenha fazendo essa observação justamente porque esse foi o meu sentimento ao terminar a leitura de Ciranda de Pedra (1954), de Lygia Fagundes Telles.

Primeiro romance de Lygia Fagundes Telles(1954)

Daí vocês me perguntam: qual sentimento, Ligia? O sentimento de estar diante de uma boa história, bem construída, que envolve o leitor e o faz refletir e as vezes até se identificar com aquilo que está sendo dito. E essa é a minha medida para dizer se um livro é bom ou ruim, esta capacidade que a história ali tecida pelo autor tem de ecoar aqui dentro, em mim.

Voltando ao Ciranda, esse que é considerado o romance de estreia da autora dentro do gênero romance. Para quem não sabe Lygia é muito conhecida por seus contos. O romance aborda as relações familiares sob um prisma, de certo modo até psicológico, a partir do universo da personagem Virgínia. 

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Torto Arado

“ Sobre a terra há de viver sempre o mais forte.”

Falar sobre Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, sem dar spoiler não é uma tarefa fácil. Esse livro é muito maravilhoso, pessoal. A gente termina a leitura com uma vontade imensa de conversar sobre o enredo, sobre os personagens e os temas colocados em discussão pelo autor de forma tão clara e atual. Mas tentarei me controlar aqui para não entregar a história.

Começo essa resenha dizendo que Torto Arado é uma obra que deveria ser de leitura obrigatória para todos os brasileiros. Estamos diante de um romance regional que é uma verdadeira aula de Brasil e um Brasil desconhecido por muitos de nós.   

O ponto de partida desta história é a relação entre duas irmãs Bibiana e Belonísia. Um incidente marca a vida das duas para sempre e, de certa forma, o destino de todos os moradores de um povoado pequeno chamado Água Negra. As duas irmãs vivem numa fazenda no sertão baiano, na região da Chapada Diamantina com a família. Ambas são filhas de Zeca Chapéu Grande, um homem trabalhador muito respeitado pela comunidade, especialmente, por seus poderes curativos.

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O Filho de Mil Homens

Valter Hugo Mãe nos coloca em contato com uma série de histórias unidas pelo amor de indivíduos que já não tinham mais esperanças de afeto

Finalizo O Filho de Mil Homens, do escritor Valter Hugo Mãe, com a sensação de que o tempo me fará compreender a grandeza e as sutilezas desta obra. De início, confesso a vocês que não achei uma leitura tão fluida, daquelas que você devora numa sentada, talvez pela própria densidade das histórias de vida de cada um dos personagens, ali descritos de um jeito tão maravilhoso e único pelo autor. Mas curiosamente, terminei o livro com várias marcações de trechos e com a sensação de que esses fragmentos me acrescentarão e me farão refletir por um longo tempo –  o que considero um traço muito importante e positivo na minha avaliação de uma obra enquanto leitora: a capacidade que essa obra tem de me tocar e me fazer pensar sobre a realidade, sobre as relações, sobre o ser humano, sobre mim mesma.

Acho que a melhor definição para descrever este livro é compará-lo a um tecido. Valter Hugo Mãe, de repente, nos apresenta uma série de histórias que estão interconectadas entre si como um emaranhado de linhas unidas por alguns traços em comum que mais adiante formarão uma colcha, um cobertor que os acolhe. Estamos diante de personagens que não tinham esperanças e afetos e, de repente, ao longo da trama vão descobrindo que o amor surge do inesperado e que esse amor pode ser aquele amor que não cabe em caixas, em padrões sociais pré-definidos. São personagens tão bonitos que crescem, amadurecem e aprendem ao longo da trama e com isso muito tem a nos ensinar.

O esperançoso Crisóstomo sonhava em ser pai, ter uma família, a companhia de uma esposa, e depositava as suas esperanças em pedir ao universo e a natureza a companhia de um filho.” E depois disse que estava a sentir-se maluco por falar à natureza … e porque tinha falhado no amor e a última vez que lhe pertencera alguém importante por quem muito se iludira fora já há muito tempo, e quase não se lembrava de como era ter uma companhia dessas, uma companhia de verdade. A companhia de verdade achava ele, era aquela que não tinha por que ir embora e, se fosse, ir embora significaria ficar ali, junto”. De repente, ele vê o seu desejo atendido, não de modo convencional conforme preconizado pela sociedade. Mas Crisóstomo tem seu desejo atendido com a chegada do jovem Camilo a sua vida, um órfão com uma história de vida muito especial, e na relação construída entre os dois, ambos tem muito a aprender um com outro.

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Poesia Nossa de Cada Dia: Ora direis ouvir estrelas

Quando eu estava pensando em criar este espaço, o Receitas Literárias, a minha ideia era compartilhar tanto um pouco de poesia – a poesia nossa de cada dia que nos move, que me move – quanto de prosa.  Por força do hábito, tenho compartilhado muito mais da prosa e pouco da poesia.  Mas se tem uma coisa que eu adoro fazer, de vez em quando, é pegar um livro ao acaso na minha estante ou abrir o computador e buscar uma poesia e lê-la em voz alta, para mim mesma, numa pausa, uma espécie de oração entoada, experimentem, é sensacional.

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Minha lista de livros lidos em 2020

Querido leitores (as), antes de começar a falar sobre as minhas próximas leituras, gostaria de compartilhar aqui a minha lista de livros lidos em 2020. A resenha de alguns deles vocês encontram aqui no site: www.receitasliterarias.wordpress.com.

1. O avesso das coisas, Carlos Drummond de Andrade;

2. El viejo y el mar, Ernest Hemingway;

3.  Minha querida Sputnik, Haruki Murakami;

4. Becoming (Minha História), Michelle Obama;

5. Um casamento americano, Tayari Jones;

6. Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, Maya Angelou;

7.  O livro dos abraços, Eduardo Galeano;

8. Meu Universo, Ananda Beleza;

9.  O dilema do porco-espinho, Leandro Karnal;

10. As coisas que você só vê quando desacelera: Como manter a calma em um mundo frenético, Haemin Sunim

E vocês já leram algum deles? Se sim, me diga o que acharam…

O livro dos abraços, de Eduardo Galeano

A leitura de O livro dos abraços, de Eduardo Galeano, foi um verdadeiro afago para encerrar esse tão difícil 2020. Contemporâneo como nunca, atemporal  como só ele saber ser, Galeano nos presenteia com pequenos abraços ao longo de uma coletânea de textos curtos sobre as suas vivências em diversos países da América Latina, refletindo sobre a vida, as crenças, os sonhos, o dia a dia, as inúmeras histórias que nos une e nos conecta enquanto povos americanos.     

Um dos meus textos favoritos é sobre O mundo em que ele nos conta que numa aldeia de Neguá, no litoral da Colômbia, um homem conseguiu subir aos céus e de lá teve uma visão maravilhosa da vida humana e a certeira conclusão: “ O mundo é isso, um montão de gente, um mar de fogueirinhas.” E prossegue: “ Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo”.

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Eu sei por que o pássaro canta na gaiola

Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, de Maya Angelou

Várias coisas me impressionaram na leitura dessa obra, mas acho que o que mais me impactou foi o fato de estarmos diante de uma autobiografia traduzida num romance com tamanha qualidade técnica e literária. Poucos escritores ou melhor poucas pessoas teriam a incrível capacidade e sensibilidade de transformar em romance a própria história pessoal, de forma tão poética, visceral como fez Maya Angelou em Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, apresentando fatos pessoais tão íntimos, tão marcantes e ao mesmo tempo tão tristes como fez a escritora. Refletir sobre a própria história, reconstruí-la e coloca-la num livro é um ato de coragem, aliás não poderia ter melhor adjetivo para descrever a pequena Marguerite.

O ponto inicial dessa aventura começa com Marguerite e seu irmão Bailey, por volta dos três e cinco anos cada um, sendo mandados para viver com a avó paterna, Srª. Henderson (carinhosamente chamada de Momma), e o tio Willie no Sul dos Estados Unidos numa cidade chamada Stamps, no estado do Arkansas. Acho que esse é um dos primeiros atos de coragem desses irmãos, viajar sozinhos nessa idade sem saber qual destino os esperava.

Estamos nos anos de 1930 e o contexto é o de forte segregação racial, especialmente nos Estados Unidos, e aí a gente pode ver quão cruel é o racismo e o divisor de águas que provocou no curso da história de uma vida, de uma família, de uma cidade e de uma nação. Oportunidades, destinos, sabor de sorvete, escolaridade tudo determinado pela cor da sua pele. A cor da pele definindo o seu passado, presente e futuro.

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Um casamento americano

Um jovem casal americano iniciando a vida juntos veem seus planos serem interrompidos por uma condenação injusta. É em torno dessa fatalidade que a escritora Tayari Jones constrói esse romance envolvente que fisga o leitor do início ao fim.

Um casamento americano lança um olhar perspicaz ao coração e à mente de três pessoas unidas e separadas por forças além do seu controle.

O livro foi presente de aniversário de um grupo de amigas que me apresentaram a esta escritora e a julgar pela qualidade desta obra, tive vontade de ler outros títulos da autora.

Cada capítulo é contado sob a ótica dos três personagens principais (Celestial, Roy e André) dessa trama. É interessante porque temos a perspectiva dos fatos para cada um deles e, assim como é a vida, cada um de nós tem a sua versão da história, a partir da sua própria visão e da percepção que tem de si e de seus sentimentos.

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A História de Michelle Obama

Eu terminei de ler esses dias a autobiografia de Michelle Obama, Minha História (Becoming, título original em inglês). E confesso que estou há alguns dias processando essa leitura. Até demorei um pouco para escrever aqui sobre o livro porque estava curtindo uma espécie de solidão literária, refletindo sobre as palavras de incentivo, força e otimismo dessa mulher brilhante e que hoje nos tem sido tão necessárias em meio a esses tempos difíceis que estamos vivenciando.

O relato íntimo e poderoso da ex-primeira dama dos Estados Unidos

Em Minha história, Michelle Obama conta, pela primeira vez, toda a sua história em suas próprias palavras da infância no South Side de Chicago à vida em família na Casa Branca. O livro traz também uma série de fotografias que ilustram sua trajetória.

Comecei a ler a bio de Michelle nas primeiras semanas de isolamento social obrigatório em Brasília (DF) quando passei a trabalhar a partir de casa. O livro não é dos mais pequenos – 426 páginas e, como li o original em inglês, meu ritmo de leitura  em outro idioma é mais lento do que no nosso bom português. Em meio a tudo isso, o trabalho ficou mais intenso, e como eu passo o dia lendo textos, muitas vezes no fim do dia, sinto uma espécie de estafa das letras e das telas. No entanto, essa leitura acabou se tornando uma companhia preciosa nos últimos meses. Comecei a ansiar pelo fim do expediente para ter uma pausinha das atividades e conseguir ler as minhas 10 páginas por dia a que me propus. Tinham dias que eu conseguia, outros não, mas eu sempre lia um pouquinho.

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